sábado, 23 de março de 2019

A minha Filantropia Barata


Ido do Tchamutete à Caála, para onde fomos residir, fugidos dos confrontos armados em 1974, acto que poderia levar a provável morte do meu velho por ter sido um militante teimoso do MPLA e eu um entusiasta militante da OPA,
Na nossa casa vivíamos de simpatias divididas, o velho e três rapazes do MPLA e a velha da UNITA, na paz como uma espécie de Primeiro de Agosto e Petro que sempre perde.
O que me chama a este episodio é o novo amigo conseguido por força desta mudança de residência, o Bernardo.
Rapaz com os seus treze anos, alguns meses menos que eu, filho de gente sem posses, enquanto eu estudava a sétima classe ele andava na terceira e quase sem roupa alguma.
O Bernardo tinha apenas dois calções, um para ir à escola e outro que não merecia este nome, de tão roto e já não aceitar remendos.
Tinha a parte escura das nádegas e todas fora dos trapos a confundirem-se com duas abóboras encaixadas.
De tanta pena e porque tínhamos de andar em passeios juntos, retirava da minha roupa, alguns calções para oferecer ao Bernardo e estarmos em pé de igualdade.
Já naquela idade, eu não me sentia justo, andar em pé de superioridade diante o meu amigo, até que um dia a minha velha, que até era boa, descobriu a minha filantropia com dinheiro deles, neste dia vi o sol vermelho e o diabo a assar sardinha.
E pensam que até hoje deixei?!


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