sexta-feira, 29 de setembro de 2017

TOMADA DE POSSE DO NOVO PRESIDENTE E MAN BARRAS O APROVEITADOR DELIRANTE!

Andava tudo em ordem num dia incomum de 2017, a data de 26 marcava a saída do Zé e entrava o João num ambiente festivo e de expectativas, pairava alguma tensão. Gente nervosa numa investidura que parecia mais um jogo de futebol entre o Petro e 1º De Agosto, com alguns adeptos torcendo para a mudança de chefe, enquanto outros comovidos choravam desalmadamente a retirada de qual guerreiro invencível na transferência do trono deixando órfãos de privilégios desolados.

Nesta onda de oportunas oportunidades nem se sabe como Man Barras apareceu na tribuna VIP o tipo se descompunha em posturas mirabolantemente provisorias. Tirava selfies repetidas com um indivíduo de tom de pele branca que diziam ser presidente, abraçando-o, beijando e farfalhando nas bochechas enquanto chamava-o “ti Celito daqui, ti Celeiro de-acolá, outras vezes até um ‘ouve lá Man Marcelinho’.

Batia sem maneiras no ombro do senhor e tudo ia tão bem, até a ponto do confiaçudo puxar dos lábios do branco alheio uma beata de cigarro, o que lhe valeu um correctivo diplomático com um golpe de cotovelos ocasionais de um dos guardas de honra latagão do visitante português.

Triste e com dores nas costelas, o homem chorava por dentro, o coração aquecia, ranho misturado com lágrimas desfilavam no peito, até que deu inicio a cerimonia de investidura. Hino entoado e seguido de salva de canhão, ao que ele, esquecendo-se do acto formal, pôs-se aos gritos. “Dá-lhe, dá-lhe, aplica mais uma rajada, hoje queremos ver pólvora, ele merece”, e sacava pacotinhos de wiscky The Best, do interior da pasta da câmara fotográfica Canon que portava pendurada ao ombro.

Minutos depois ouvia atentamente o discurso do Juiz que numa das abordagens, ele deu um grito penetrante: “Não aceita Man João ele é que é juiz e te manda você combater a corrupção, já viram esse esperto!” Faça-o! Faça-o! …Faça-o você que ganha salário para tal. Deste lapiseira que não escreves seu traiçoeiro e agora vens com fingimentos, kwende oko!
O incansável Man Barras aludido amigo de infância e companheiro de recruta do presidente eleito, assobiava, em jeito de troça e ia avisando aos presentes: “Chegou a nossa vez, umas Sonangois, e uns terrenos no Mussulo, vamos começar a melhorar muito bem a partir dos Resorts, é por ai, é por ai as correcções das coisas boas”. De propósito descalçava os sapatos, limpava o suor com cerveja, dava um golo e atirava as garrafas para o ar, num ar de intocável, de gente grande, desde então não era mais um qualquer.

Decorridos todos os pressupostos da cerimonia o homem do dia de toda Angola, o presidente mais votado, tomou a palavra num tom de padre Alberto da Muxima, era o momento mais alto e esperado:
“Camaradas, (uma pausa) vamos corrigir o que está mal, (mais outra pausa para respirar bem), camaradas (pausa para olhar umas damas do protocolo) não vamos nomear a incompetência dos que ficam a beber The Best misturado com cerveja, (Man Barra apanhou um susto), se alguém pensa que vou andar com quem me faz envergonhar no seio dos meus convidados esta muito mal-enganado. Eu vou ser o lideres de todos, crianças e aleijados, bonitos e feios. Olhem! (continuou) Todos os pobres podem vir até mim e queixar-se, porta aberta, mas os ricos, os ricalhaços que não se portarem bem, vou dar galhetas eléctricas (´palmassss, fiuuuuu, fiuuuuu’ as palmas e assobios pareciam mais de inveja dos ricos que de apoio).

Tem mais! Aquele gajo que pensa que basta ser meu amigo para ter tudo na vida, tira o cavalinho da chuva, eu não vou receber nenhum amigo no meu gabinete, nem em casa”.
O coitado do Man Barras ao ouvir com desespero esta última mensagem e ver que não era por ai que viria a ser rico, ‘através’ do amigo de tropa e infância, aceitou desmaiar!


Embora deitado inconsciente no chão, virou um fenómeno a ser estudado, porque suava pêlos sovacos e só graças a duas velhas do bairro que conheciam kifutos de verdade, o homem hoje ainda vive, mas sentado numa cadeira de rodas de um AVC exterminador.

domingo, 24 de setembro de 2017

O SOLDADO DESCONHECIDO

A independência contrastava com o sinónimo liberdade no sentido de paz, chegavam nomes e terras que adicionavam lugares ao nosso desconhecimento geográfico, Lumbala Nguimbo, Cahama e Cassinga, outros cantos na voz de Francisco Simones conjecturavam, Munhango e sangue, Kuhemba, Andulo, Sanda Massala, a terra queimava e cimentava-se o terror de um solo embrutecido.

Brigadas do plano férreo, jovens comandantes Major Mambo e Wi Wi Atencion, mil faixas, mil conjecturas, a dor, o argumento da guerra dizimava, dilacerava qual chamas, qual labaredas, homem feito carne de canhão!
Juventude coarctada, minas antitanque no trilho, frente de combate o número de homens não contava, carregados em tipóias membros dilacerados ficaram para trás, sem um braço, ou uma perna.

Foram cem, ou foram mil ou milhões as vidas que se perderam, não tem conta nem estatística possível ou campas para calcular, não foram poucos e quantos ainda vivos, quantos desaparecidos, pois somos os soldados quais desconhecido desta pátria e;

[Os meninos do Huambo a volta da fogueira vão juntando no céu, estrela e poesia, vão saber o que custou a liberdade]   

Canção: Os meninos do Huambo

sábado, 23 de setembro de 2017

MUDANÇAS E AJUSTAMENTOS

E lá vamos nós, nas calmas, para a quarta republica.

Estamos indubitavelmente dentro de uma teorização onde “mudam-se os homens mudam as vontades”, não sendo o caso, inevitavelmente seja este o desejo de muitos de nós. Com mais uma viragem da historia, vemo-nos atravessando um novo dia, novos actores políticos e uma nova visão, onde se alvitra uma mudança de 360 graus e é por este motivo que desde agora temos um novo presidente e o seu vice.

Talvez sim, ou sequer não, vemo-nos quase diante imprevisíveis figuras para a sucessão, pois as especulações remetiam-nos a conjecturar rostos mais visíveis no metier politico e nos pressupostos financeiros para a substituição do Pr. JES.

O que esperamos deles?! Acredito que muita expectativa, mas na verdade nada tão diferente se nós, também, não nos dedicarmos, se não formos nós mesmos a mudar primeiro e deixar de acreditar que pobre deve continuar pobre, o que isso pode sim ocorrer, se a este mal acrescer a preguiça e a nossa letargia de ver a vida de forma passiva e conformista.

Esperam-se mudanças e um refrescamento nas medidas de liderança, começando por assumir uma melhoraria no ambiente regulatório, e sua efectivação prática, dando a Pedro o que é de Pedro e de César o que é de César.
Tem de se mobilizar o país no seu todo sem distinções imaginárias, porque está claro, que não há curvas a dar, nem uma outra saída qualquer. O dilema é fazer ou fazer, sob pena de degradarem-se as conquistas alcançadas e entre eles a paz como um bem maior.


Bem-haja a quarta republica e mãos na massa meus senhores.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

A BATALHA DO KUITO KWANAVALE E O MEU HERÓI ANÓNIMO!

Reza a memoria que das duas minhas possíveis idas ao Kuito Kwanavale em pleno teatro de guerra, acredito que numa delas eu seria hoje um herói não tão bem vivo assim, talvez um esqueleto qualquer sem pele no crânio a rir com os dentes por fora, juro mesmo!

A primeira enquanto oficial do batalhão de rádio da 5ª Região militar, indigitado para a operação segundo congresso e a segunda (a mais fatal) enquanto parte do sétimo curso de oficiais de Luta Contra Bandidos da escola Major Marcelino Dias na Funda, pois o efectivo deste curso estava recomendando para a guerra de quadriculas e estrategicamente garantido para refrescar as tropas das 3º e 5ª Regiões Militares onde o Quetron e o G5 assobiavam numa Kitota séria.

Porque não fui ao Kuito? Porque não morri? Porque não me fiz herói ou um soldado qualquer desconhecido?
Why: Lista feita, num ápice o chefe de Comunicações indicado para a 100ª Brigada de Infantaria Ligeira chamava-se 2º Tenente Lauriano Tchoia, no entanto, por ter de seguir imperiosamente para assegurar a disciplina de uma das áreas cruciais da IIª Região foi substituído pelo jovem-amigo Iº Tenente Afonso Pedro Ndinguili.


Entre a partilha de caserna e a deslocação para reforço da 100ª Brigada, desce do Antanov, mochila as costas, pá individual para a travessia do Longa, brigada dizimada, perda de comunicações e os relatos confirmavam que ninguém sobrou, nem o jovem Afonso Ndinguili que aos seus 28 anos, dois anos mais novo que eu, sobrou para enviar-me uma carta por aerograma militar para contar história de mais uma epopeia.  

Nota: (Relato verdadeiro, o número da brigada é fictício por não me lembrar do certo)

domingo, 17 de setembro de 2017

OS LYRIKHUS O FERIADÃO E UM CONCERTO DE SE TIRAR O CHAPEU

A Casa Das Artes ao Talatona aturou-nos no acto que marcou mais um assalto ao dia do herói nacional, lindo espaço, momento memorável para chorar o Mguxi!
Não fosse acordado da minha desatenção que vai advertindo a alguma amnésia prematura, sem dúvidas que eu perderia o melhor show que os Lyrikhus alguma vez mostraram-me a ver.
Embora tendo-os assistido diversas vezes, o grupo elevou-me aos pícaros pela dimensão musical proporcionada neste áureo evento. Simplesmente foi demais para esta alma desamparada!

Começou assim; Rostos sorridentes, eu meio acanhado, fascínio e glamour, semblante expectante na plateia, um piano, instrumentos ligeiros de percussão no palco, fotógrafos e flash aproveitando o suspense e abrir com o dedilhar sensual da pianista Anarelis Martinez uma linda senhora feita para a canção,
Na sequência surgiu o deslumbrar das vozes dos anfitriões, foi um assalto ao concerto intimista, onde os músicos, entre uma palavrinha e uma pitada de humor, ressaltavam o tons graves da melodia, fazendo-nos ouvir clássicos de Mozart, da Opera Boheme de Puccini, Opera Rigoletto de G. Verdi em canções como M’Appri, Some Enchanted, Lecuona, como uma autentica aula de arte, aclamada com palmas de um público que se rendia ao talento.

A noite não deixava de elevar os ponteiros do relógio a cima e os maestros Gomes, Brunno e Mendes, surpreendiam-nos com propostas de fazer o chapéu tirar-se por si, pois não havia tempo para que a mão cumprisse esse papel de respeito e admiração de tão estática que estava por estupefacta!
Foi decerto neste calor que nos foi apresentado o convidado da noite, professor Armando Vibungana que com três canções, a solo, um dueto e em quarteto com os senhorios, aguentou-nos com a mestria de um Barítono perfeito.

Sucederam-se momentos e entre uma proposta apôs outra, dava-se lugar a professora cubana Maitê Fernandez que com também três números vislumbrou a sala, dando azo a uma vénia.
Acreditando que o momento seria somente de puro clássico, desengane-se, saiu do camarote o homem inseparável da guitarra, cantando por beber, Luz, Luzingo Malembe, canções que foram pondo involuntariamente as palavras na boca do publico que seguiu o canto de Totó ST na antecâmara do fecho, mantendo a chama do show. Esse homem está feito outro senhor a considerar
Sucederam-se os momentos e o entusiasmo piorava, pois, estes três catedráticos da musica, formados em Cuba, agigantavam-se e guiavam-nos a luz de uma música bastante culta, dando lugar ao medo de ver a cortina fechar-se, pois os Lyrikus cantavam de tal forma que a mente se adaptara a querer mais.

Ao ditado que nos lembra que “o pano emprestado não acaba o batuque”, chegávamos ao fim com o romper do clássico Nsanda de Teta Lando, o La Donna E Mobile, Da Opera Rigoletto de G. Verdi  e o Nguixi, canção dos irmãos Cafala(s) e assim calava-se a noite.
Vestidos pela estudante de Designe Chindinha Martins assistimos a um concerto que fechou em grande o meu feriado prolongado, logo e apenas a marcar as primeiras horas.

Eu o Capitango e o Roque de Oliveira e acredito que todos os convivas, de tão alegres, saímos do local a rir à toa.
Valeu, valeu, para a Honra e Gloria aos Heróis Tombados.

G  A  L  E  R  I  A









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Os Lirikhus é um projecto formado por três jovens Angolanos, Gomes Domingos (tenor), Emanuel Mendes (tenor) e Bruno Neto (barítono) graduados pela Universidade das Artes de Cuba.

Apresentaram-se a público a 17 de Setembro 2007, na Casa da Cultura de Angola em Cuba e de lá para cá, são vistos em palcos de Angola e do Mundo, mas sobretudo na docência como professores do Instituto Superior de Artes em Luanda onde emprestam o seu saber para o desenvolvimento padronizado do canto, da música e das artes em Angola.
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Sons, Cantos e Contos.
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terça-feira, 5 de setembro de 2017

REFLECTINDO A MORTE DE NACOBETA

Uma reflexão profunda se impõe a volta da morte de Nacobeta e muitos outros da nossa praça cultural.
Fico triste quando morre alguém ligado as artes, e mais triste ainda me torno, quando me apercebo que quase todos acabam mal, pessimamente mal, transformados em pedintes, figuras de mão estendida bradando por um pão e uma pica qualquer que alivie a dor.
No entanto fico também surpreso quando se culpa em coro o ministério da cultura, que devia fazer alguma coisa, que devia ajudar na doença e outros tantos que deviam, sem que haja conformidade legal que os assista a clamada exclusividade!

Não venho, contudo, dizer que este órgão e outros do estado sejam assim inocentados, mas não vejo de bom tom que os mesmos sejam vistos 'apenas' como pronto socorro um 113 na hora da agonia senão vejamos:
O mecânico, o professor, o médico, devem dividir-se a que ministério? Não fazem muito para o pais? O Advogado, o tractorista da funda e o coveiro para aonde devem ir para que ministério!
O problema, no entanto, é mais profundo do que uma aspirina para salvar o cantor? Enfatiza-se mais o cantor porque este grito não surge tanto quando se trata de um artista plástico, um editor, um técnico de luz e som, uma bailarina porque?

Temos de ver essa problemática com os olhos de ver, sob pena de andarmos em paliativos, porque no mundo das artes, estamos diante uma profissão liberal e a exemplo disso sabemos que figuras falecidas como os músicos Michael Jackson, David Bowie, Prince, Leonard Cohen, Sharon Jones, Cauby Peixoto e George Michael, acredito que não foram pedir nada a ninguém diante a sua morte, nem se tenha feito espectáculo para angariação de fundos, senão para homenageá-los.

Estamos a pedir pouco e desejar nada.

O que na verdade o musico e qualquer outro profissional liberal precisam é de legislação e protecção, entre elas uma carteira profissional, receber benefícios que vão desde os caches pêlos espectáculos e os direitos autorais, com estes ganhos pagar impostos, descontar para um fundo de pensões, contractar seguros de vida e de carreira.

Pedir medicamentos, urna e comidas para óbito é pedir muito pouco, peçamos sim dignidade e espaço para trabalhar.
O talento não se esgota com a passamento físico e a ser assim, até depois de morto o artista vende.

“Descansa em paz e que venhamos a aprender algo com a sua partida”

DIGA LOGO O QUE QUERES MULHER

Reza a história que as mulheres não sabem o que querem, ou os homens é que andam bastante distante com as folgas da vida, dizem ainda que estes, os tais homens, não sabem separar as margens, levam a vida num obtuso garrafão de vidro, de jeito que a qualquer momento estala.

Diga o certo o que queres de mim mulher!

Quando trabalho tanto, dizes que não ligo as crianças e pior um pouco ligo a ti.
Quando deixo de trabalhar, lembras-me logo que só não tenho dinheiro porque sou mangonheiro, não faço uso das minhas influências e não me esforço.

Até pareces os estatísticos ao considerarem que quando temos meio corpo a arder em brasa num forno ou numa caldeira e a outra parte (metade) a arrefecer em gelo num frigorífico, o corpo esta diante uma temperatura normal. Teorias o que te fazem!

Esposa querida, mãe dos bebés, minha kassule entenda-me que estou longe de seguir a linha do saudoso Neto, perceba que eu não gostaria nunca, de atingir o Zero.
Isso jamais!