domingo, 31 de julho de 2016

SANDRA CORDEIRO E O REGRESSO EM GRANDE

Esta voz madura do AfroJazz que é Sandra Cordeiro fechou como abriu o último show da primeira fase da temporada relativa a IIIª Trienal de Luanda. Com poesia no timbre da voz e na letra da sua canção parou a plateia madura que se fez a este magnífico espaço.
Foi uma viagem entre o soul music o blue, kilapanga e massemba num concerto que teve uma caracterização própria que assinala a Sandra em palco e quem diria que ela vem de uma pausa forçada pois maternidade!
Nas canções apresentadas, passamos por ouvir os temas Tempo, Luandense, outros tantos e o Ji Minina, obra de Filipe Mukenga que quase não fechava o show. não fosse o bis a pedido do público. A interpretação bem conseguida faz deixar aqui um recado para que Sandra invista mais um pouco em temas nas línguas nacionais, como contributo ao resgate e valorização do património comum e o gozo de viver momentos próprios desta terra. “Faça isso minha amiga que vai dar certo”.
Foi um show caracterizado pela humildade e sabedoria da cantora, que tratou de interagir de forma intimista com um público formado por apreciadores, profissionais de imprensa, até cantores (seus colegas) que deram uma valorização ao concerto em si, numa demonstração de quanto é querida.
Seu corpo pequeno enchia o palco num domínio real de quem assenta com perfeição e mestria no seu ‘métier’, bem como soube estar a altura da nata de rigorosos instrumentistas que este país possui nesta temática. Um a parte para sublinhar que entre os demais executantes, sobressaiu desta vez Nino Jazz, o homem dos teclados, por sinal grande produtor da música clássica, não fosse por si, o arranjista de vários temas da própria Sandra, Totó, Gabriel Tchiema, Filipe Mukenga e Zau, Ndaka Yo Wiñi, só para citar estes nomes.
Não calhasse o friozinho da época e o sono a pedirem o regresso para o berço, a indisposição em arredar pé seria maior.
Pois bem nossa Sandrina, és um caso para no meu sorriso dizer tão-somente; wellcome back.

                                         Video da música "Esquece"

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Composição da banda:
Viola Baixo: Mayo Low
Guitarra: Toty Sa'Med
Baterista: Dilson Groove
Saxofone: Raider
Teclados : Nino Jazz


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sexta-feira, 29 de julho de 2016

MAN BARRA - SEGUE VIAGEM À TURQUIA

|SÃO CENAS MIZIRMÃS|!
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Depois de ter passado pela fronteira do Necuto no Mayombe encontra-se com macacos e toda a espécie de animais, uns felizes outros nem tão simpáticos assim, visitou algumas bases antigas da guerrilha e lá ia o Man Barras pensando na admiração do polícia fronteiriço quando em resposta a sua pergunta informou que iria à Turquia.
“Meu irmão tens coragem e tenha uma boa viagem, olha que ainda falta muito, mas como vais por uma causa nobre e pareces destemido, …avança papá”. Lá entregou ‘de volta’ o passaporte com o visto de saída e entrada das Nações Unidas ao futuro herói.
Já em território Congolês, pensando passar pelo Gabão e chegar ao Egipto para atravessar o mediterrâneo a canoa, encontrou uma comunidade de caçadores que ao saudar “boa tarde meus senhores” não entendendo a língua, apenas um respondeu; “Ndengue nini”?
“Ndengue nini o caralho, falem lá o português, até aqui bem longe também tem langas”?
Os coitados dos caçadores da RDC, na RDC não percebiam o que falava o homem, mas não eram tão burros a ponto de não verem que o tipo era cheio de arrogâncias. Meio assustados com o destino do homem viajante, tremiam de medo no lugar dele.
De longe vinha o chilrear dos pássaros que aproximavam-se, começaram a rondar o homem como que a avisar sobre algo mal, mas a coragem dele vencia todos os metros a sua frente.
“Ché, ché quem esta ai no capim? Aparece, mostra a cara”?
Nem terminou o apelo, sai dos arbustos um leão que vem a sua frente, quando virou vinha uma leoa atrás de si e a todo o gás o coitado do homem saiu como flecha em direcção a árvore mais próxima, aos gritos”
“Wa weee, dois contra um não vale, isso é contra os direitos humanos, wawé, sou da igreja católica, sou amigo pessoal de sua santidade o papa Chico e de todos os ministros e deputados de Angola, deixem-me ir até a Turquia, sou Man Barras o herói das guerras que ainda não combati”.
Correndo e falando, entre quedas, pinos e rastejos, mesmo ferido por uma dentada tremenda da leoa na perna direita, o homem apanha um galho da árvore e jogando-se como um dardo, subiu para o ramo mais alto e empoleirou-se, sem saber se chorava de dor ou de medo, tremia que nem batatas soltas na frigideira eléctrica.
Tendo sido salvo momentos depois pelos caçadores anteriores, dados os gritos ouvidos que pareciam trovoadas, desceu da árvore a desconfiar do regresso dos leões malandros e voltou numa tipoia até a fronteira, com a perna amarrada e ligaduras até a cabeça, informa o sucedido ao polícia fronteiriço:
“O chefe devia falar-me do perigo, mesmo esses langas ai, sabiam dos leões e não me avisaram. Eles são bandidos, são mais perigosos que os leões, foram eles que agitaram e mandaram ‘xe-kuata’, eu não vou mais à Turquia, wawé, wawé, quero ir na minha mãe, me paguem só um bilhete de avião”. A SUKU WANGE, NÃO TENHO SORTE!
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NI: Sinceras desculpas pelo uso de uma  palavra pouco simpática no texto, dado o carácter do personagem e o uso geral no real, não conseguimos contorna-la.
-Langa- Nome 'pejorativo' atribuído aos retornados do Congo, retirado do apelido do músico Zaiko Langa Langa.
-Ndengue nini – Então, como é? (Questionamento)
-Wawé – ai (Grito de dor)
-Xé-Kwata - Agarra

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quinta-feira, 28 de julho de 2016

PETIÇÃO| Ó PÃO PÁ - MBOLO - O MBOLO

|SÃO CENAS MIZIRMÃS|!
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Pão nosso de cada dia que estas 40 Kz, onde queres nos levar?
Se somos assim tão pecadores, perdoai as nossas culpas e volta só onde saíste.
ASSIM, QUAL É A TUA IDEIA?
                                                               
                                                              

terça-feira, 26 de julho de 2016

GARI SINEDIMA - O ASTRO QUE DESPONTA PARA O ALERTA

Este músico já é um projecto acabado do ponto de vista de realização e identidade musical.
Foi bom te-lo visto no Palácio de Ferro, aí mesmo em frente a ENDIAMA. 

Feito que está um espaço que decide albergar a arte real, eis-nos diante um casamento entre a pintura, escultura, dança e música, um verdadeiro encanto de arte.
Depois de uma reforma, o local assimilou deste modo, um conceito que se designou chamar TRIENAL DE LUANDA, já na sua 3ª edição.

Quanto ao músico, sentiu-se que esse rapaz de sangue ovambo, definiu bem o seu rumo e enveredou pelo caminho mais sólido para se impor no mundo da música, optando pelo clássico angolano e é na música clássica onde reside o toque da sua insistência.

É ai onde flui a exigência para a perfeição e a aglutinação da poesia com os argumentos mais sofisticados da melodia e harmonia.
O desenvolvimento enquanto músico, ocorre num momento em que Gari poderia muito bem abordar estreitamentos de métodos e poderia com dois súbitos toques, chegar a um estrelato cujo sentido realçaria apenas argumentos de comercialização, sem importar-se que a música é muito mais que isso.
Como sempre, esteve presente uma perfeita exibição e verdadeira orquestração de classe e investigação.
Gari Sinedima conseguiu, e é neste alcançar que ontem na Trienal, pode fazer-me embalar, reflectir, flutuar no tempo e fazer a alma dançar com os ancestrais.
Neste espaço bem vindo para quem ama a arte, fez-se duro deixa-lo com um sabor de quem; “quer mais”!

Obrigado, meu MUCHAMANI - PILUKA.
                                                                       

sábado, 23 de julho de 2016

MAN BARRAS – VAI A GUERRA NA TURQUIA

|SÃO CENAS MIZIRMÃS|!
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Abriu o telejornal e o Ernesto Bartolomeu anunciava a situação muito tensa na Turquia, golpe de estado e pessoas desesperadas a fugirem sem camisas, outros com chapéus a cair ao chão e eram apenas pernas para que te quero.
“Com licença meus senhores, dão-me licença, não ouviram? Vocês são surdos ou fazem-se. Quero passar pá”?
“Mas quem é esse ai a chatear”?
“Esse ai a ova, um gajo a gritar para passar e vocês na boa, sabem que a coisa esta quente e vocês nem deixam atravessar, seus coelhos”.
“Ouve lá, cuidado com as expressões, põem-te a pau com as tuas maneiras. Diz-me lá onde queres ir com esta pressa de mocho atrapalhado”.
“Se querem mesmo saber, eu vou para a Turquia, ouviram, TUR-KI-A, vou dar carga na cena. Quando oiço disparos os meus espíritos sobem”.
“Só você mesmo! Tu metes as tripas em tudo, onde pensas que é essa tua Turquia? Em Catete”?
“Não importa se é perto ou longe, eu Man Barras determino; se não haver carro vou a pé, eu Man Barras chego lá e estrago toda a amizade. Chego, disparo e arrumo os gajos todos. Quem disse que esse tempo de crise com bilos de arroz e açúcar nas filas das lojas é para andar por ai a complicar”.
“Complicar o que Mam Barras, o que é que sabes sobre um caso desses que não te diz respeito.”
“Então, vejo pessoas a morrerem nesse tempo da diversificação, dizes que o assunto é alheio? Eu vou e verão as minhas façanhas logo no telejornal. Vão ver-me por cima de um caro blindado nos braços de duas boazudas, uma bandeira e a ser recebido pelo nosso PR com pessoas a cantarem; Força Man Barras. Força Pai Grande”.

“Vocês vão me sentir. “WO NDO MONA JI HEROI YA DIKOTA”.
                                                                                     

                                                                                  

quarta-feira, 20 de julho de 2016

MEL, DOCE MEL!

Ai …se soubéssemos de onde vem o mel que comemos!
De uma coisa tenho certeza e qualquer um concordaria comigo se afirmar que o mel é das coisas mais doces que nos pode passar pelo paladar. Ocorre sempre um gosto quando de forma natural pomos a prova das nossas atentas pupilas gustativas o sabor que nos proíbe inventar rejeição do produto.
Como ele e naturalmente outros produtos existirão por ai, com a mesma carga sacarina aliciando gostos espontâneos. Ah pois, não, quem não chuparia no dedinho?!
Mas uma vez o mel entra em minha vida na forma que me faz rebuscar a tia Candeias que na diagonal de uma breve visita ardilou-nos fortemente com um apetecível litro esvaziado de vinho, agora cheio de mel, deixando-nos numa malandra posição de tropa de infantaria em ofensiva.
Calções em suspensórios e meia-bota de camurça feita pelo tio Benedito Filipe o sapateiro e padrinho da família, elas duravam uma eternidade.
Foi desta forma que a saudosa tia encontrou-nos em casa para deixar o produto sobre a mesa e distrair-se em conversa fiada. Somadas uma hora, vivemos uma autêntica exposição a tentação e lá surgiu ela no personagem de boa tia, chateada por não nos ter visto tocar na mercadoria trazida com amor e carinho. Dai, eu e o Costa é assim que se chama o “irmão que eu puxei” fazendo bom uso deste emanado pranto, nos demos conta com a garrafa outra vez vazia em mãos, trinta minutos depois de um enormíssimo rosário de prazeres. No entanto, os vestígios nos nossos lábios e bochechinhas anémicas traduziam por si sinais de tremenda festa, enquanto as duas cunhadas (minha mãe e a tia) no desfile do palratório fazem uma pausa para o susto esperado:
“Vocês os dois acabaram o litro de mel”?
Num outro par de sustos, nos entre-olhamos na rebeldia, sem saber se aquele mel tão doce, tão doce, provinha mesmo das terríveis abelhas que ferram ou de Lumbala Nguimbo, no Moxico?! Alias, aceito todavia, que venham mais litros, seja de onde for, nestas coisas de mel doce, “Nós somos do Cazenga”.



                                                                                  
                                                                      

sábado, 16 de julho de 2016

MAN BARRAS – O SEMI PERSSEGUIDO

|SÃO CENAS MIZIRMÃS|!
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“Ai wé, ai wé, isso é persseguição”.
O homem levantava os braços para o ar com os olhos fechados a orar, tremia-lhe a cabeça pelo pescoço e ia cuspindo nos cantos da casa.

“Perseguições de que Man Barras, tu tens o que na tua vida para te perseguirem se até esta casa graças o dinheiro da zunga da tua mulher, até nem sei mesmo se é só ‘mesmo’ das vendas”?
“Ó Frank sei que eu Man Barras não tenho muita coisa mas um bocado também tenho. Esta gente é invejosa, não prestam. Como é que um gato deixa todas as casas e vem chorar no meu teto e ainda por cima caga logo, logo no saco de fuba, como é isso”?

“Mas, tu deixas o saco de fuba aberto e queres o que? A comida deve ser bem protegida contra os bichos e até do mau-olhado, imagina lá que uma aranha mija na panela e vocês comem. Morrem todos, principalmente você que é guloso, a comida ainda não esta pronta pedes um naco de carne para provar”.

Sempre com desculpas de mau pagador, agradava-lhe não ser vencido nas discussões, como nunca trabalhou, fazia disso uma competição de vida ou morte durante o dia no bairro. Quando todos os adultos fossem trabalhar, juntava-se as crianças e discutia futebol com eles, a ponto de tirar a camisa para lutar com os putos.

“Há, eu provo porque a minha mulher as vezes exagera um bocado no sal, é maleee”
“Isso é desculpas meu irmão, provar não é só o molho?! O Feijão pedes logo meio prato, se for galinha já não se fala, queres a parte do peito. Ainda bem assim morres sozinho porque nessa tua gulosice, quando estares caído no chão o resto da família vai ficar sem apetite. Até aquele teu filho do meio parecido contigo, come feio, 'lapagi wa kudila' . Estragaste muito mal aquela criança, ele papa que papa”.

Como sempre, vendo que está perdendo terreno na discussão, acobarda-se procurando argumentos com ameaças.


“Não insulta Frank, não provoca, já falaste de mim, agora falas da criança, daqui a pouco vais falar a minha mulher que me trata bem, depois da zunga trás sempre um pacote de vinho para aumentar os apetites do meu corpo, não achas que isso é ingerência externa de invejoso?! Te mandaram na União Europeia ou que”? ME DEIXA PÁ