quarta-feira, 20 de setembro de 2017

A BATALHA DO KUITO KWANAVALE E O MEU HERÓI ANÓNIMO!

Reza a memoria que das duas minhas possíveis idas ao Kuito Kwanavale em pleno teatro de guerra, acredito que numa delas eu seria hoje um herói não tão bem vivo assim, talvez um esqueleto qualquer sem pele no crânio a rir com os dentes por fora, juro mesmo!

A primeira enquanto oficial do batalhão de rádio da 5ª Região militar, indigitado para a operação segundo congresso e a segunda (a mais fatal) enquanto parte do sétimo curso de oficiais de Luta Contra Bandidos da escola Major Marcelino Dias na Funda, pois o efectivo deste curso estava recomendando para a guerra de quadriculas e estrategicamente garantido para refrescar as tropas das 3º e 5ª Regiões Militares onde o Quetron e o G5 assobiavam numa Kitota séria.

Porque não fui ao Kuito? Porque não morri? Porque não me fiz herói ou um soldado qualquer desconhecido?
Why: Lista feita, num ápice o chefe de Comunicações indicado para a 100ª Brigada de Infantaria Ligeira chamava-se 2º Tenente Lauriano Tchoia, no entanto, por ter de seguir imperiosamente para assegurar a disciplina de uma das áreas cruciais da IIª Região foi substituído pelo jovem-amigo Iº Tenente Afonso Pedro Ndinguili.


Entre a partilha de caserna e a deslocação para reforço da 100ª Brigada, desce do Antanov, mochila as costas, pá individual para a travessia do Longa, brigada dizimada, perda de comunicações e os relatos confirmavam que ninguém sobrou, nem o jovem Afonso Ndinguili que aos seus 28 anos, dois anos mais novo que eu, sobrou para enviar-me uma carta por aerograma militar para contar história de mais uma epopeia.  

Nota: (Relato verdadeiro, o número da brigada é fictício por não me lembrar do certo)

domingo, 17 de setembro de 2017

OS LYRIKHUS O FERIADÃO E UM CONCERTO DE SE TIRAR O CHAPEU

A Casa Das Artes ao Talatona aturou-nos no acto que marcou mais um assalto ao dia do herói nacional, lindo espaço, momento memorável para chorar o Mguxi!
Não fosse acordado da minha desatenção que vai advertindo a alguma amnésia prematura, sem dúvidas que eu perderia o melhor show que os Lyrikhus alguma vez mostraram-me a ver.
Embora tendo-os assistido diversas vezes, o grupo elevou-me aos pícaros pela dimensão musical proporcionada neste áureo evento. Simplesmente foi demais para esta alma desamparada!

Começou assim; Rostos sorridentes, eu meio acanhado, fascínio e glamour, semblante expectante na plateia, um piano, instrumentos ligeiros de percussão no palco, fotógrafos e flash aproveitando o suspense e abrir com o dedilhar sensual da pianista Anarelis Martinez uma linda senhora feita para a canção,
Na sequência surgiu o deslumbrar das vozes dos anfitriões, foi um assalto ao concerto intimista, onde os músicos, entre uma palavrinha e uma pitada de humor, ressaltavam o tons graves da melodia, fazendo-nos ouvir clássicos de Mozart, da Opera Boheme de Puccini, Opera Rigoletto de G. Verdi em canções como M’Appri, Some Enchanted, Lecuona, como uma autentica aula de arte, aclamada com palmas de um público que se rendia ao talento.

A noite não deixava de elevar os ponteiros do relógio a cima e os maestros Gomes, Brunno e Mendes, surpreendiam-nos com propostas de fazer o chapéu tirar-se por si, pois não havia tempo para que a mão cumprisse esse papel de respeito e admiração de tão estática que estava por estupefacta!
Foi decerto neste calor que nos foi apresentado o convidado da noite, professor Armando Vibungana que com três canções, a solo, um dueto e em quarteto com os senhorios, aguentou-nos com a mestria de um Barítono perfeito.

Sucederam-se momentos e entre uma proposta apôs outra, dava-se lugar a professora cubana Maitê Fernandez que com também três números vislumbrou a sala, dando azo a uma vénia.
Acreditando que o momento seria somente de puro clássico, desengane-se, saiu do camarote o homem inseparável da guitarra, cantando por beber, Luz, Luzingo Malembe, canções que foram pondo involuntariamente as palavras na boca do publico que seguiu o canto de Totó ST na antecâmara do fecho, mantendo a chama do show. Esse homem está feito outro senhor a considerar
Sucederam-se os momentos e o entusiasmo piorava, pois, estes três catedráticos da musica, formados em Cuba, agigantavam-se e guiavam-nos a luz de uma música bastante culta, dando lugar ao medo de ver a cortina fechar-se, pois os Lyrikus cantavam de tal forma que a mente se adaptara a querer mais.

Ao ditado que nos lembra que “o pano emprestado não acaba o batuque”, chegávamos ao fim com o romper do clássico Nsanda de Teta Lando, o La Donna E Mobile, Da Opera Rigoletto de G. Verdi  e o Nguixi, canção dos irmãos Cafala(s) e assim calava-se a noite.
Vestidos pela estudante de Designe Chindinha Martins assistimos a um concerto que fechou em grande o meu feriado prolongado, logo e apenas a marcar as primeiras horas.

Eu o Capitango e o Roque de Oliveira e acredito que todos os convivas, de tão alegres, saímos do local a rir à toa.
Valeu, valeu, para a Honra e Gloria aos Heróis Tombados.

G  A  L  E  R  I  A









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Os Lirikhus é um projecto formado por três jovens Angolanos, Gomes Domingos (tenor), Emanuel Mendes (tenor) e Bruno Neto (barítono) graduados pela Universidade das Artes de Cuba.

Apresentaram-se a público a 17 de Setembro 2007, na Casa da Cultura de Angola em Cuba e de lá para cá, são vistos em palcos de Angola e do Mundo, mas sobretudo na docência como professores do Instituto Superior de Artes em Luanda onde emprestam o seu saber para o desenvolvimento padronizado do canto, da música e das artes em Angola.
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Sons, Cantos e Contos.
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Fotos: Tucanaré Lopes
Administrador repórter: Lauriano Tchoia

terça-feira, 5 de setembro de 2017

REFLECTINDO A MORTE DE NACOBETA

Uma reflexão profunda se impõe a volta da morte de Nacobeta e muitos outros da nossa praça cultural.
Fico triste quando morre alguém ligado as artes, e mais triste ainda me torno, quando me apercebo que quase todos acabam mal, pessimamente mal, transformados em pedintes, figuras de mão estendida bradando por um pão e uma pica qualquer que alivie a dor.
No entanto fico também surpreso quando se culpa em coro o ministério da cultura, que devia fazer alguma coisa, que devia ajudar na doença e outros tantos que deviam, sem que haja conformidade legal que os assista a clamada exclusividade!

Não venho, contudo, dizer que este órgão e outros do estado sejam assim inocentados, mas não vejo de bom tom que os mesmos sejam vistos 'apenas' como pronto socorro um 113 na hora da agonia senão vejamos:
O mecânico, o professor, o médico, devem dividir-se a que ministério? Não fazem muito para o pais? O Advogado, o tractorista da funda e o coveiro para aonde devem ir para que ministério!
O problema, no entanto, é mais profundo do que uma aspirina para salvar o cantor? Enfatiza-se mais o cantor porque este grito não surge tanto quando se trata de um artista plástico, um editor, um técnico de luz e som, uma bailarina porque?

Temos de ver essa problemática com os olhos de ver, sob pena de andarmos em paliativos, porque no mundo das artes, estamos diante uma profissão liberal e a exemplo disso sabemos que figuras falecidas como os músicos Michael Jackson, David Bowie, Prince, Leonard Cohen, Sharon Jones, Cauby Peixoto e George Michael, acredito que não foram pedir nada a ninguém diante a sua morte, nem se tenha feito espectáculo para angariação de fundos, senão para homenageá-los.

Estamos a pedir pouco e desejar nada.

O que na verdade o musico e qualquer outro profissional liberal precisam é de legislação e protecção, entre elas uma carteira profissional, receber benefícios que vão desde os caches pêlos espectáculos e os direitos autorais, com estes ganhos pagar impostos, descontar para um fundo de pensões, contractar seguros de vida e de carreira.

Pedir medicamentos, urna e comidas para óbito é pedir muito pouco, peçamos sim dignidade e espaço para trabalhar.
O talento não se esgota com a passamento físico e a ser assim, até depois de morto o artista vende.

“Descansa em paz e que venhamos a aprender algo com a sua partida”

DIGA LOGO O QUE QUERES MULHER

Reza a história que as mulheres não sabem o que querem, ou os homens é que andam bastante distante com as folgas da vida, dizem ainda que estes, os tais homens, não sabem separar as margens, levam a vida num obtuso garrafão de vidro, de jeito que a qualquer momento estala.

Diga o certo o que queres de mim mulher!

Quando trabalho tanto, dizes que não ligo as crianças e pior um pouco ligo a ti.
Quando deixo de trabalhar, lembras-me logo que só não tenho dinheiro porque sou mangonheiro, não faço uso das minhas influências e não me esforço.

Até pareces os estatísticos ao considerarem que quando temos meio corpo a arder em brasa num forno ou numa caldeira e a outra parte (metade) a arrefecer em gelo num frigorífico, o corpo esta diante uma temperatura normal. Teorias o que te fazem!

Esposa querida, mãe dos bebés, minha kassule entenda-me que estou longe de seguir a linha do saudoso Neto, perceba que eu não gostaria nunca, de atingir o Zero.
Isso jamais!

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

JOVENS COMO ESSE HENRIQUES SÓ ANIMAM

[O porco não morre na cama do hospital]

Passo a passo se faz o caminho.
Jovem na sua dimensão da vida, um metro e poucos centímetros, tudo para dar um bom guerrilheiro daqueles da primeira região, os então celebres irmãos cambutas do finado comandante SKS, faziam fugir o Kaputu muangole wandala o kutugiba.

O também engenheiro de profissão Henrique Jorge deu-se com as mãos em terra desbravar e hoje por hoje, consolida-se no plano do agronegócio.

Conheci-o num momento de frustração onde tanto ele e a sua criação de perplexos porquinhos planificavam a vida ao contrário, por verem larápios sem algum esforço, investirem na calada da noite porque estavam a “semar” apetites de carne de porco nos dentes e tinha logo que ser os leitões deste meu novo amigo.

Roubam já e vão, nada! Davam sempre umas galhetas no único guarda da fazenda a ponto de lhe lesionarem o braço, mas como eu não alinho com estes truques da presunção de inocência, desconfiava que o tipo do semi-guarda devia andar metido no truque de comer também a carne. O meu faro de detective de Kimbundu interpretava aquelas historias de roubar e para não te desconfiarem pedes uma boa surra de te inflamar o focinho.

Felizmente os poucos que tinham restado tomaram outro rumo e hoje por hoje apôs o glorioso resgate respiram salvos e bebuchinhos que kuia da vida, até que um forno ou uma boa caldeirada os receba para a gloria eterna.
Porco tem esse destino, não morre na cama do hospital, te criam para te comer nos alembamentos ou no natal se não te fizerem chouriço.

Enquanto pensava que era o descalabro tinha atingido o meu amigo, nada disso, o rapaz dos petróleos refaz-se como rambo, quase nem sente o carinho matinal da parceira, coisa que homem feito não dispensa, inventa desculpa e desde as quatro da manhã, sai para ver a terra germinar legumes no seu espaço junto a lagoa da Funda Kilunda em Luanda.

Fico deveras satisfeito por ele estar feliz, e vê-lo distribuir tomates, sorrisos e cebolas da cesta básica singular.

Deixo o recado que nesta fase da diversificação, estamos intimados a comer os produtos da fazenda Âvo Tete, sob pena de sua mãe vir a ser mbika.


GLOSSÁRIO
Cambutas - Pessoa de pouca altura
Kaputo Muangole Wandala o Kutugiba - Os colonos em Angola querem nos matar (Letra da musica do cantor José Eduardo dos Santos)
Semar -  Pessoa com apetite estranhos geralmente ocorre em mulheres em gestação
Galhetas - Bofetada (calão)
Kimbundu - Neste caso alguém da região ambundu.
Surra - Porrada
Bebucho que Kuia - Bebezinho saboroso (Nome de um músico angolano
Alembamento  Kulamba, acto de noivado.
Mbika - Calão sem tradução própria, mas usada para abusar alguém

domingo, 3 de setembro de 2017

TETA LANDO UM GÉNIO INTEMPORAL

Soube a pouco o reviver Teta Lando num show de ‘apenas’ três horas, tão pequeníssimo para gozar o prazer verdadeiro de sentir na alma o monstro que usando do seu engenhoso talento faz-se intemporal.

Cerca de trinta homens e mulheres fizeram-se ao palco para numa harmonia singular, filosofarem nas letras de um poeta que fez do canto o trilho para os versos que tão bem cantaram, a terra, o amor e a união.

Sente-se na canção deste monstro um pacificador ingenito, um Mbutamunto próprio, um granjeado ancião prematuro na sua humilde dimensão, com lugar no jango da sabedoria africana.

Jogou-se à vida mal percebida, pôs décadas a sua frente na visão ténue a convidar o Amor fraterno “não veja a cor que ele tem; eh irmão, ama o teu irmão”.

Teta Lando tem de ser percebido todos os dias por nossas gerações, que se trucida por uma micha qualquer, dividindo-se quais atrozes se demolindo no apagão triste do tempo repugnante.

Assentou notas na canção de embalar com o drama da tia Chica que jamais amigou depois da peripécia maldosa do Senhor Manuel que aproveitou-se dela para juntar riqueza e se foi, “Tia Chica coitada pegou desgosto e nunca mais amigou”.

No afro da sua percussão o músico agregou provérbios populares, fez-se com Kimbemba e Ntoyo o pássaro mensageiro, cantou a dor da mamã grande, marcou saudosas nostalgias incompreensivelmente enquanto emigrante, à um refugio para salvar o sopro da vida. Ela, a vida, de Teta não foi apenas sorrisos!

Nós, as cerca de seiscentas almas nos fizemos ao Plaza em duas memoráveis noites, para junto da Nova Energia homenagearmos a eternidade de um cantor que Angola jamais quis ver partir, mesmo sabendo que está feito uma estrela que brilha no mais cómodo espaço cibernético.

Yuri Simão e a Nova Energia mais uma vez a provar que para um bom omelete não precisa apenas ovos de avestruz, os jovens interpretes Erika Nelumda, Alexandra Bento, Jay Lorenzo, Jojo Goveia, Kiaku Kyadaff e o Irmão Teta Lágrimas, mostraram que nós te percebemos tarde demais Teta Lando e a dimensão da tua memorável obra.

É caso para dizer que “esta geração vai falhar, se não erguermos já a tua merecida estátua”. 


De Angolanos para Angolanos

...
Jango - Lugar de Reunião/cerimónia ; Mbuta Munto - Mais velho ; Kimbemba e Ntoyo - Nome de pássaros 


O VIDEO COMPLETO DO SHOW



G  A  L  E  R  I  A



Fica sabendo que tamanho não é documento, ouviu seu Hélder!



Haja responsabilidades neste show, isso não é para pirralhos



Deixa.nos entrar rapaz, sabes quem sou eu para Teta Lando?




Vou mostrar o que é show!

Essa gente me convenceu pá!


Enquanto a Yuma anda distraída a trabalhar, o 'malandro' aproveita!


Deve ser o homem com mais juízo na equipa



Abram alas

Olha nós aqui
Essa figura
É meu amigo


sábado, 2 de setembro de 2017

O AMANTE NÃO PODE AMAR

Bolsa de estudo concluída e o emprego compensava, não era por acaso que estudara numa das melhores universidades dos Estados Unidos.

Vida financeira em crescimento, casamento prosperando, chegara o filho a quem dera o nome de seu tio, mentor da sua formação.

Decorridos um par de anos chegavam recados ao ouvido que sua mulher tinha sim um amante.

Insistentes mensagens, gente chata, incluindo suas irmãs bruchas d'uma figa, insinuando que nas viagens pagas por ele, ela tinha sempre companhia do jovem vizinho que o saudava e prestava-se a ajudar quando trazia carga para transportar para o apartamento do casal, no primeiro andar.
O tempo não concordava em aceitar tais ditos, foi dura a batalha dele para o sim do namoro, igreja-casa, ela não era vulgar, ganhou dele carros de primeira linha e a conta bancaria a seu dispor não era das que o zero aparecia no saldo à toa!

O que mais queria uma mulher para sentir felicidade a seus pés?! Quantas mulheres a seu lado não morriam de inveja dela por excesso de atenção do esposo?! Definitivamente isso era mentira, gente má só destrói.

De volta para o trabalho no mar o helicóptero avaria na placa. “Senhores passageiros o voo fica adiado para amanhã as 5h00”.
Satisfação, regresso a casa, porta meio aberta, ela deve ter ido a loja de conveniência ao lado.

Do quarto um ligeiro som de musica, entra e seus olhos não crêem em beatas de cigarro, duas taças sob a banca, meia garrafa de wisck expelindo gás carbono, dois corpos agarrados ao guarda-roupas era ficção.

Os gritos ensurdecedores da mulher espantam o jovem para a fuga e faz íman dos vizinhos para a curiosidade. Dissabores e horror confundindo o ar, sinais vitais de péssimo clima, agressão, depressão.

O jovem que já fugira as milhas, volta para acudir a amante, ao ve-lo de regresso, ela liberta-se do esposo e da-lhe dois socos no peito e: “ Estragaste a minha vida, já te disse muitas vezes que um amante não pode amar”.