sábado, 27 de abril de 2019

UMA AULA COMPLETA DO PROFESSOR BRUNNO NETO


Brunno Neto foi o artista, cantor, regente, professor que se apresentou em grande na sala do Memorial Dr. António Agostinho Neto para nos deleitar de boa música, numa actuação sui generis.

Tomamos conhecimento que foi um concerto preparado ao detalhe, o cantor e os demais músicos não queriam de nenhuma maneira defraudar o público que ocorreria ao espaço e confesso que cerca de metade, foi sem saber o que os esperava.

Viveram-se aproximadamente duas horas, de um concerto do jovem que faz parte da casta de músicos, cujo investimento feito para a sua formação no Instituto Superior de Artes em Havana Cuba, o país jamais se arrependerá, dinheiro bem gasto pá. Em Brunno Neto temos sim um grande músico.

A festa foi lírica e fomos banhados por uma aula com temáticas supercomplexas de execução em termos vocal, cantar aquilo é preciso ter caixa e garganta com saúde a sobrar. Aposto que, se no mínimo duas filas daquela sala estivesse ocupada por músicos da nossa praça, confesso que no final, metade deles sairia dai a repensar na carreira.

O reportório fantástico do barítono levou-nos a ouvir Ich habé genug, um tema de Bach, cantor oriundo do sacro Império Romano-Germánico, cantou-se Comme parle vezzoso, Bella Cubana e eu sinceramente me esbarrei de boca aberta na interpretação de La Boheme do francês Charle Aznavour, adoro particularmente este clássico.


Estes foram os temas que começaram a dar voz a noite e a retirar o frio da barriga, tanto do músico como do público que passava a confirmar que não foi para aí perder o seu magnífico tempo.

Soavam palmas na sala e os assobios ligeiros deixavam de serem tímidos, acreditando todos nós, que para além de desfrutar, estávamos num lugar sagrado, pois repousa a escassos metros os restos mortais do primeiro presidente de Angola. Era também para nós uma visita ao Nguxi.

O mergulho na música clássica fez-nos viajar em temas do canto lírico, canto Erudito e Fantasma da ópera, fazendo sentir-nos invejavelmente num conservatório da idade medieval.

Entre todos os entretantos, vivemos momentos de pura teimosia quando o cantor Brunno Neto sacou temas Angolanos em kimbundo como Avó Beia, uma música de Pedrito que encaixou como o pé no sapato na voz lírica, canção vinda a propósito para a dedicação ao seus progenitores, o papa e a mamã, que se fizeram presentes no local para verem o artista deles.

Fez-se um Rock disciplinarmente aligeirado que nos fez reviver os tempos dos grandes como os Bittles, The Rolling Stones e outras bandas que rasgaram o mundo com o som metálico da guitarra.

Não faltando convidados como tem sido da praxe, o professor Brunno Neto trouxe a aluna Su Valente que mostrou que tem potencial e esta no caminho certo, veio outra surpresa na voz lírica de Marilia Alberto que depois de um dueto, ficou em palco para nos encantar de tal forma que; só Deus!


Com o andar dos minutos começamos a acreditar no ditado que avisa; o que é bom dura pouco, mas sabíamos que o caramelo viria no final, pois, eu a Dama, o Osvaldo Trombeta e o Christiano Nsungo nos deleitávamos de sorrisos rasgado, com selfs e o abanar aprovativo das cabeças.

Depois de interpretar Bonga na famosíssima canção Mona ki ngui xiça ou se quisermos (mona mona muene kissweia weza, mona mona mwene, calunga nguma), seguiu-se Yolando del hermano Cubano Silvio Rodrigues, um trovador intemporal, saiu da cartola Emanuel Mendes com o seu vozerão Tenor, dispensando tudo o que era microfone.
Foi um momento de empurrar com o sopro da voz qualquer barco em alto mar, onde juntou-se o anfitrião para ambos, cobrirem a ausência de Gomes por razões de saúde e escangalharam a sala.

Contando hora e meia sentados sem darmo-nos por isso, entra Jay Lourenzo com o tema It´s a man de Pavarotty e Jammes Brown num momento de bater palmas sem cessar e poder observar o queijo levantado dos sorridentes espectadores.

Sala cheia, boa gente, luz, som e banda de superdotados, foi o cenário que não queríamos ver fechar, tal, qual, criança cujo sabor do sambabito se esgota lentamente na boca.

G  A  L  E  R  I  A


A estreia da aluna Su Valente







Com o companheiro inseparável o tenor Emanuel Mendes 





O fecho com Jay Lorenzo

Os Pais
Senhor Domingos Neto e Conceição Capangue Neto

Lauriano Tchoia
17/04/19

sábado, 23 de março de 2019

Afrikkanitha sob o crivo crítico de Lauriano Tchoia


Afrikkanitha é uma voz que nos desperta de forma clara, para um conceito que se afirma como rumo de uma música estruturada, é uma voz do jazz que se distingue pelo esforço em manter os dogmas da classe e critérios de uma cantora perfeita.
Ela agrupa em sí, um domínio da génese criativa e faz-se suportada por padrões estéticos que balizam o seu canto.
Qualquer bom ouvido pára, para ater-se aos argumentos que se entrelaçam na sua música, com sonoridades desde os instrumentos de precursão, sopros e cordas e por final a voz. “Quem a ouve Afrikkanita, sente-se bem”. 
É esta voz que ela ergue para cantar a paz o amor e a vida, com a música Tabanimató num grito de insurreição, faz-se em defesa das crianças, num alerta ímpar, enquanto também progenitora, sofre pêlos desfavorecidos no continente, sofre enquanto mãe.
Na música, a cantora, eleva-se ao trazer o inglês para a compreensão das imagens que é a nossa Africa, traz reflecções sobre carências, incompreensões, convulsões sociais e o desespero em Haya Kele. O pregão desta cantora, junta-se as vozes do Africa de Ismael Lô, ou Africa Yami da Gabriel Tchiema com a rica participação de Gerald Totó.
Entre os seus variadíssimos temas fundidos na sua obra discográfica, uma particular alusão ao Nga Madia, numa fusão do Massemba com o jazz articulado numa percussão ímpar, eleva o Kimbundo no texto, para o degustar de audiências onde o tema cai como Cocktail num lanche tropical de bombo com ginguba e maruvo do Bengo. 
A relevância pelo Jazz fez-lhe intransigente, a menina da Rua 16 do Bairro Mártires de Kifangondo, simplifica criteriosamente o canto e neste planar pode ombrear perfeitamente com Dianne Reeves na magnitude da raça negra.
Afrikkanita nasceu nas terras férteis do café negro, e bebeu influencias culturais, do cisosi* e Lundongo numa passagem pelo bairro Académico no Huambo onde os senhores António José “Brazil” natural da Kibala e Carolina Sandaleno de Porto Amboim, ambos da província Angolana do Kuanza Sul, fizeram-na passar por razões profissionais.
Regista-se por parte desta, um grande apego a sua família, beija, ouve, ampara e presta-se a dedicar a máxima atenção aos que a ela ocorrem para um abraço fraterno de mana-irmã e recebe de forma recíproca o respeito e a amizade que lhe é merecido, por doar-se aos seus.
Não tem como, …este percurso humano e as mil viagens que carrega aos ombros, só podiam dar certo, pois, permitem-lhe ler o universo por cima e plantar poesia com mestria em cada canção que apresenta ao seu público.
Afrikkanita enquanto rainha do Soul Music desta terra, é a perfeição de uma musa que impulsiona a música de Angola para um auditório de singular complexidade e com estrada para trilhar, só imploramos que continue a brilhar, …enfim.
*Lê-se Tchissoci
Texto publicado na edição de 17 de Março no Jornal de Angola.

A minha Filantropia Barata


Ido do Tchamutete à Caála, para onde fomos residir, fugidos dos confrontos armados em 1974, acto que poderia levar a provável morte do meu velho por ter sido um militante teimoso do MPLA e eu um entusiasta militante da OPA,
Na nossa casa vivíamos de simpatias divididas, o velho e três rapazes do MPLA e a velha da UNITA, na paz como uma espécie de Primeiro de Agosto e Petro que sempre perde.
O que me chama a este episodio é o novo amigo conseguido por força desta mudança de residência, o Bernardo.
Rapaz com os seus treze anos, alguns meses menos que eu, filho de gente sem posses, enquanto eu estudava a sétima classe ele andava na terceira e quase sem roupa alguma.
O Bernardo tinha apenas dois calções, um para ir à escola e outro que não merecia este nome, de tão roto e já não aceitar remendos.
Tinha a parte escura das nádegas e todas fora dos trapos a confundirem-se com duas abóboras encaixadas.
De tanta pena e porque tínhamos de andar em passeios juntos, retirava da minha roupa, alguns calções para oferecer ao Bernardo e estarmos em pé de igualdade.
Já naquela idade, eu não me sentia justo, andar em pé de superioridade diante o meu amigo, até que um dia a minha velha, que até era boa, descobriu a minha filantropia com dinheiro deles, neste dia vi o sol vermelho e o diabo a assar sardinha.
E pensam que até hoje deixei?!


domingo, 9 de dezembro de 2018

WALDEMAR BASTOS O TROVADOR INTEPORAL

Um nome, uma marca, um músico para a eternidade.
Foi em Cabinda, quando, pela primeira vez ouvi a música de Waldemar Bastos, foi em Cabinda, quando, o Cafune então cantor militar, depois da participação no festival da canção política, traz na corda da sua guitarra a canção vovó Chica. Era bonito ver o Cafune canta-la para nós. E nós amavamos.

Cantamo-la em fogueira de combatente e com o maior dos atrevimentos, aprendi a dedilhar este tema no meu B, A, BA da guitarra.

O Waldemar era nesta altura, para mim, apenas o vovó Chica do menino ‘juado’ que queria saber de coisas que não se deviam saber.

Dai foram viagem, nos poucos trabalhos que se podiam ouvir, foram viagens até vê-lo ao vivo no Cine Primeiro de Agosto ao R20, na abertura do festival Nacional das FAPLA. É, afinal, o Waldemar era mulato.

Não tardou saber, que não mais o veria, porque Waldemar teve de tomar outro rumo, dava o mungueno, para as bandas, Waldemar foi levar a vovó Chica para outras paragens do mundo e fez-se por conta disso um contra-revolucionário, por querer voar livre, voar, voar.

Não tardou Waldemar voltou, veio à terra sem o seu corpo físico, veio o WB na canção do disco Long Play, sem camisa cobrindo o tronco e com missangas a cair.

Waldemar jamais parou, Waldemar andou o mundo a cantar o Nduva, e Lalipó Lubango e cantou a terra, sem a sua bandeira, esta tal de estrela e roda dentada que o faziam negar, mas Waldemar não parou, mas não a rasgou.

Foi este WB que me levou ao Royal Plaza e juro que, iria mais, se o Show Aula fosse todos os finais de semana e se não fôr, posso morrer, posso morrer, já vi o que me faltava na minha vida sobre este músico.

G A L E R I A